segunda-feira, 24 de setembro de 2012

morreu de bobeira

passa garota
na bossa Ipanema
e agora já foi..
mas "olha", que olha
"que coisa mais linda"
a vida que passa
já foi, já ficou
parada no tempo
que nem tempo é
é luz, é memória
da perspectiva
da vida que passa
versinho a versinho
que o teu pedacinho
virou capital
tua "lua vaidosa,
sestrosa, dengosa"
pranteia o destino
que, como um menino,
discute com tempo
enquanto a garota
leiloa os quadris
da bossa esquecida
nos ventos, na vida
de quem já não samba
de quem já não pé
de quem já não vive
de quem já não é
a mesma criança
dos tempos de fé
que pula faceira
do alto do pé
jabuticabeira
da beira do rio
morreu de bobeira
viveu de vazio

segunda-feira, 11 de junho de 2012

sem contar o resto

é que antes eu dormia com ela
e hoje eu não durmo com a falta dela

aquele cheiro que me perseguia
aquele abraço que me perfumava
eu sinto falta do sorriso dela
da alegria que eu tinha com ela

é que antes eu sorria com ela
e hoje eu choro com a falta dela

aquela voz que me estremecia
aquele beijo que me renovava
eu sinto falta da presença dela
daquela paz que eu tinha com ela

é que antes era eu com ela
e hoje não sou eu com a falta dela

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Além-mar

Implica levar-te a sério
Correr este tão grave risco:
Deixar-me levar pelo visco
Que adorna teu doce mistério.

É que as cores da alma que tens;
Conseguem, de súbito, arder
O meu coração que, a bater,
Me avisa dizendo que vens.

E levo comigo tua mão;
Que ontem atou-me o olhar,
Que ontem despiu-me a razão;

Aonde, não sei, pr'além-mar;
Onde o meu e o teu coração
Não queiram senão se casar.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Aos Pardais

Deem-me asas, e eu lhes mostrarei o que não fazer com elas. Pensando melhor, deixem as asas com os pardais. Eu quero um rio. Como assim, um rio? E o que é que se faz com um rio que se ganha de presente? Nada. Nada? É, nada. Certo, aqui está: um rio. Muito obrigado! Vou escrever sobre ele. Ganhei um rio, com milhares de peixinhos. Bordas largas e foz em delta. Chega de palavras rotas: agora tenho também uma nascente. Cabe todo mundo dentro do rio, e tem água pra saciar muita sede. Não é senão a realização de um sonho extravagante. Ter um rio! Mas.. Mas, afinal de contas, ter um rio não é tão fascinante como parece quando escrevo. Agora vou tratar de direitos. O rio é minha propriedade, mas habita fora de mim. Não é água de minha água, nem curso do meu mar. Rio do meu rio. Um rio vazio. Acaso aquilo que tenho me torna quem sou? Acaso sou um rio? Esta dúvida muito me angustia. Ser ou não ser? Ter ou não ter? Vês que não sou o primeiro a questionar tudo isso. Rio do ri(c)o? Onde está a sensação que sempre vislumbrei quando imaginava ter um rio? Tenho o rio e não posso sequer movê-lo. E tudo o que escrevo é vão, porque, na verdade, nem este rio me pertence. Tenho só palavras. E ainda nem sei. Se eu digo que em palavras revelo quem sou, então o que tenho - as palavras - revelam meu ser? É isso? Sou proprietário das palavras ou sou as palavras em si? Quantas perguntas. Quem terá respostas? Ou, quem será a resposta? Divirto-me com meu rio. Divirto-me em palavras. E isso me torna quem sou. Sei meu nome, endereço e profissão.. mas quem sou eu? Sou palavras que possuem um rio. Sou um rio falante. E podes banhar-te comigo.. deixarei de ser apenas palavras. Podes tocar-me, fazer-me perguntas com os olhos. Te darei meu rio. Me darás teu riso. E ao Sol, Riso, dialogaremos com nossos seres, enquanto aprendemos com os pardais o que fazer com as asas que vamos ganhar..

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Hoje cedo, no consultório médico.

O homem é a ruína do sossego alheio. Hoje cedo, no consultório médico, havia uma criança. Um bebê! Sua mãe o acompanhava e lhe dera uma revista, a qual observava e mantinha no colo. Que tédio. Revista chata, lugar chato. Uma ideia. Executou-a. Bater forte na capa do semanário, com toda a forcinha das duas mãos! E isto lhe bastou para sorrir faceiro. Que alegria! Aquele ostinato ecoava pelo consultório e nada lhe fazia mais feliz do que exercitar o poder de fazer barulho. Mas havia ainda a mãe, que, em um instante, suprimiu-lhe a conquista, a diversão. Xiu! A revista é pra ler, meu filho. Foi trazido à chatice inicial. Mas não por muito tempo, dada sua mente criativa e operante. Não passou um minuto, fixou os olhinhos em duas bolas de vidro que decoravam a mesa de centro do consultório, que lhe estavam a 3 ou 4 passos de distância. E então, sorrateiro, num ímpeto, iniciou um ensaio de corrida com a mãozinha estendida e o alvo fixo em direção ao foco! Todo o prazer de fazer bagunça, a centímetros de seus dedinhos. Que nada. Sustado novamente pela agente de operações anti-bagunça. Sua mãe quer sossego, quer ensiná-lo a ser adulto. Todavia, o pequeno exerceu seu direito de revolta: um grito! Agudo, curto e denso. E visitou-lhe, de novo, a felicidade. O poder de dar um grito! Incomodar novamente o adulto e chato sossego alheio! Repetiu o feito, algumas vezes, até que fosse silenciado por gente madura e trazido de volta ao tédio. Notei que, em momento algum, qualquer outra coisa lhe alegrava tanto como fazer-se notar e perturbar a ordem estabelecida. E já sabia como usar suas armas: precipuamente os gritos, bastava ter na cabecinha um objetivo claro. E lançava mão de suas prerrogativas de criança. Já era capaz de manipular. Adentrou à consulta, ouvi mais gritos. Saiu de lá, gritando ainda em prestações, como quem toca alto um alarme. E, finalmente, mamãe deu o golpe de misericórdia. Pôs-se a chorar. Fingia. Olha filho, mamãe está chorando! Imediatamente o pequenino pôs suas armas no chão e esqueceu-se de seu direito (ou poder) de bagunça. Em voz triste e doce, lamentava: mamãe? Ô, mamãe! Chorando, mamãe? E ela, só em um canto da boca, disfarçadamente, sorria, comemorando o êxito. Também sabia manipular, desde criança.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Mundo dos seres.

Um breve conselho para dias difíceis: põe-te no papel. Escreve-te. Registra cada história que te distrai e conta pra ti mesmo teus segredos. Assim, podes conversar contigo mesmo, subjetivamente. E podes te olhar ali: objetivo, escrito. Imaginar-te no lugar dos que irão te ler, talvez, e descobrir de ti coisas que estavam ocultas, ou que acabaram de surgir. Não tenhas medo de fugir do óbvio! Não busques as palavras perfeitas e dá-te ao luxo de inventar algumas, para que quando te leres, saibas que és o único que conheces a fundo teus códigos: aqueles inexprimíveis. E por saberes teus códigos, ainda que inconscientemente, não raro ignoras teu brilho. Quantas vezes o fizeste? Deixa entrar em ti, de novo, aquele sentimento de encanto que nos invade diante do desconhecido. Olha pra ti, mais uma vez, como se fosse a primeira. Apresenta-te a ti, brinca com tuas próprias aparências e ri dos teus medos. Depois, quando aquele pedaço de ti estiver no papel, distribui aos outros. Deixa que dialoguem. Dialoga tu também com teu escrito: pergunta os porquês e enxerga tuas limitações (vê que só tu sabes a razão de teres usado aquelas palavras e não outras). Aos poucos, serás eterno. E dirás mil coisas novas no meio de palavras velhas. Quando te registras, informas ao mundo quem és. Por isso, nos dias difíceis, toma um papel e grita forte! O silêncio dos mudos escritos te será não só um espelho, mas um horizonte. Uma pequena trilha que se abre em direção ao imenso mundo dos seres, e não só dos "teres".

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tu..

Tu que tens a voz como o som de muitas águas; que os meus ouvidos não são capazes de compreender. Tu que tens o rosto que brilha como o Sol do meio-dia; que meus olhos não conseguem olhar. Tu que tens a Terra por estrado dos Teus pés e tens os céus como disseminadores da Tua glória. Tu que estás presente em todos os lugares, e nunca deixa minha destra. Tu que és o dono da paz que excede todo o entendimento; e que foge à minha limitada razão. Tu que és o inventor da música e das artes, que a elas dá sentido e valor, que através delas gritas a um mundo surdo e a este homem vil. Tu que és maior do que todas as coisas e que te fizeste menor do que todas elas para mostrar que Teu amor é a Tua essência: eu imploro para que nunca me abandones, e para que jamais me prives da Tua infinita glória.